#1 roda do vento: sobre andanças e viver cumprindo as ordens de um bom destino
e também sobre lições de confiança e desapego
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Essa semana chorei em sonho. Era meu aniversário e também minha despedida de uma cidade aparentemente desconhecida na qual eu vivia. Desconhecida quando justaposta a memórias da vigília, diga-se, pois no sonho ela não parecia causar qualquer estranhamento. Por lógica, intuição ou ambos, associei essa cidade a Recife, minha última morada antes de voltar pra Bahia, dessa vez rumo ao litoral. Depois de encontrar raízes na Chapada Diamantina e de uma breve porém profunda lição de resiliência com a caatinga de Tucano, região sisaleira do estado, voltei pra fazer casa entre o mar e a floresta e assim vem sendo desde que cheguei por aqui, no começo de abril.
No sonho, eu andava pela tal cidade encontrando família, amigos e estranhos de quem me despedia e com quem celebrava. Lá pelas tantas, uma amiga me convidava pra subir num ônibus que vinha chegando, o que a princípio parecia um gesto aleatório. Eu perguntava pra onde o ônibus nos levaria e explicava que minhas coisas — bolsa e alguns pertences — tinham ficado pra trás. Ela me acalmava dizendo que eu não me preocupasse, logo voltaríamos pra buscar o que fosse preciso mas agora o ônibus passava e perdê-lo seria perder uma oportunidade e ter de esperar por sabe-se lá quanto tempo até que ele retornasse.
Juntas subíamos no ônibus. Eu, ainda um pouco confusa mas confiando no convite, em poucos segundos via a paisagem urbana dando lugar à uma vista impressionante do mar, o carro seguindo por um elevado beirando o oceano e lá embaixo uma vegetação exuberante, luz do sol nas ondas, todo um cenário paradisíaco intensamente luminoso e um círculo de pessoas miniaturizadas pela distância do olhar realizando uma espécie de ritual. De repente eu começava a chorar agradecendo enquanto minha amiga curiosamente se transfigurava em outras amigas e ia contando que a intenção do passeio era justamente aquela, apenas estar presente observando as surpresas do trajeto com o máximo de abertura e o mínimo de expectativa possível. Ela ainda me provocava dizendo algo a respeito de um antigo amor, perguntando o que teria acontecido se de antemão eu tivesse questionado demais o rumo exato da história ao invés de vivê-la com entrega. Eu ria pensando no absurdo de desperdiçar uma experiência de amor tão rica mesmo que cheia de dores, no componente clichê da situação e na minha impossibilidade de resistir à beleza emergindo diante dos meus olhos. Chorar e agradecer, era tudo o que me restava.
Semana passada foi celebrado o dia de Santa Sara Kali, conhecida como padroeira dos povos ciganos, uma data pela qual tenho apreço tanto por ser uma oraculista que tece no trabalho com o baralho cigano os fios de seu ofício (importante dizer que esse baralho não tem origem cigana e tal associação se dá apenas no Brasil) quanto por vir costurando em alguma medida uma vida de andanças, de certa deriva geográfica. Desde muito cedo me vi identificada com a figura da andarilha mas só em 2019, aos vinte e sete anos, foi assentando em mim a coragem necessária pra assumir essa vocação.
Não foi coincidência eu ter visto e escutado a palavra coragem repetidas vezes — facilmente mais de cem — em minha primeira consagração de ayahuasca no começo daquele ano, precisamente na virada do ano gregoriano. Era um prenúncio e também um chamado, uma convocação dessa força em minha vida. De lá pra cá vivi em onze cidades distribuídas em seis estados brasileiros, viajei pelo interior do país durante oito meses, abri novos caminhos de atuação profissional, reconheci amizades de outras eras, casei, separei, entrei num mestrado e vi nascer em mim um amor cada vez mais espraiado em diferentes direções e formas de relação, capaz de multiplicar-se e irradiar e reservado não apenas aos humanos. Também o meu amor pela terra e pela miríade de seres que a compõem — visíveis e invisíveis — foi pouco a pouco se alargando.
Minha saída definitiva do Rio foi fruto de um sonho, sonho não apenas no sentido de um desejo futuro, mas de um conteúdo acessado durante o sono e também através de estados meditativos. Desde então humildemente obedeço aos chamados, busco desenvolver uma escuta atenta a essa forma de comunicação sutil através da qual a vida conversa conosco e posso dizer que sou feliz assim. Afirmar que sou feliz assim passa longe de um cenário de alegria, plenitude e realização constantes, importante contar, afinal a tristeza faz parte de uma vida saudável e a mulher que chora enquanto digita detestaria te oferecer uma imagem falsa e simplesmente irreal. Na verdade, quando digo que sou feliz assim talvez o que eu esteja tentando dizer é que estou em paz assim, em trajetos nem sempre visivelmente lógicos mas na medida do possível autênticos e em consonância com o que minha alma pede.
Uma vida de tanta movimentação exterior e consequentemente interior é também uma vida de muitas despedidas conscientemente orquestradas, de fins de ciclo escancarados e tantas vezes ativamente promovidos. Com alguma frequência me vejo sendo convidada a olhar pro apego e com ele desenvolver uma relação mais saudável. Fico pensando no que fazer do que não segue comigo, em como lidar com o que aparentemente está se extinguindo pra que outras realidades, que agora fazem mais sentido, possam emergir. No geral, deixo que a saudade do antes e o medo do depois cheguem no corpo e encontrem seus caminhos, faço como com meus amigos, lhes dedico canções e danço com eles. Muitas vezes resulta em água, a mesma água que me constitui se movendo e saindo pelos olhos ou poros da pele. Às vezes dá num lamento cantado, sons estranhos, danças tortas, o que for preciso até que mais cedo ou mais tarde meu corpo se abra em prazer, risos e uma forte sensação de gratidão.
Ano passado, quando cheguei em Recife escrevi:
em silêncio dou corpo à decomposição de um passado. o que foi não desaparece, encontra no presente a atualização de sua forma, sua manifestação agora possível. a natureza ensina que o desaparecimento é uma ilusão e o fim uma mutação em que o que pode ser assimilado alimenta a vida que segue. preservar é muito diferente de cristalizar e o que é vivo se sustenta e circula justamente pela capacidade de transformação. (...) ser íntima da morte é, ao mesmo tempo, ser amiga da fecundidade afinal. disse há uns dias a uma amiga que estou comprometida com uma vida brilhante — não no sentido intelectual mas sim no que diz respeito à luminosidade — e com isso vou aprendendo a reverenciar as finalizações com ainda mais respeito e carinho. agora conduzo meus próprios ritos fúnebres e renascimentos e assim vou fazendo amizade com o tempo.
Quando escrevi isso, em maio de 2022, vivia o fim de alguns ciclos. Era o meu retorno a uma cidade grande depois de dois anos morando no interior e a despedida definitiva de Ibicoara, minha principal referência de casa àquela altura, somados a um coração abruptamente par-ti-dís-si-mo por uma reviravolta da vida (ai de mim que sou médio romântica). Um ano depois e me vejo de volta à Bahia, agora no litoral sul, o que jamais imaginaria.
Como de costume, conforme caminho vou recebendo novas informações que me ajudam a ajustar a bússola interna. Alguém poderia esperar o contrário, saber e então seguir, mas lá atrás, em 2020, comecei a entender que parte do segredo reside mesmo em confiar. Nessa época lembro de ouvir dos meus guias "Caminha, filha. Caminha e confia. Você tá esperando o que, garantias? Só vai se souber exatamente aonde isso vai te levar ou o que vai ganhar com isso? A vida não funciona assim." Sempre que paraliso na ilusão do controle e fico barganhando muitas respostas e previsões como condição pras minhas ações, volto nesse conselho. Por ter aceitado segui-lo, hoje sei bem o que ele significa, o que me ajuda inclusive a rir de mim mesma enquanto humildemente me alinho ao mistério.
No último mês revelações chegaram juntando algumas pontas aparentemente soltas desse percurso até aqui. Coisas muito íntimas e surpreendentes que me reviraram e simultaneamente me trouxeram um alívio profundo. Alívio de perceber que não, eu não estava ficando louca. Tudo fazia sentido, eu venho apenas me permitindo ser guiada, simplesmente cumprindo ordens de um bom destino como diz uma canção da Xênia França.
Do lado de dentro rainha sou eu
Mulher que ama e sabe dar adeus
Eu sei que tudo na vida acontece
Quem me conhece pode lhe dizer
Tudo eu espero e toda me entrego (...)
Mas Deus foi quem me fez nessa vida
E eu cumpro ordens de um bom destino
Um bom destino aqui não implica num destino extraordinário, excepcional, diga-se. Um bom destino tem a medida exata do seu destino, nada mais e nada menos que isso. É apenas aquele caminho que ninguém mais pode viver no seu lugar, nascido de uma relação de intimidade com a vida que vai brotando conforme percebemos que controlamos muito menos do que gostaríamos e no entanto estamos a todo momento rodeadas de indícios e sopros que nos apontam direções. No meu caso, esse caminho foi por vezes pouco linear, uma aparente confusão, ventania a princípio sem rumo até eu entender que me apegar demais a um rumo exterior ou futuro era insistir em certo grau de ilusão e me perder na desconexão. Até eu perceber uma espiral se desenhando no invisível, dentro e fora do tempo, aqui, agora e além.
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Se há coragem pra ir, que vá



